sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

a violenta e embaciada sedução dos dias

dois passos acima do limite dos olhos ou a forma bruta de tomar o espaço
a penumbra crepuscular e os traços abruptos de um vermelho fino a marcar os passos que não existem ainda
        pensar negro
        pensar de azul
        nunca pensar o vermelho porque ele é sangue
aguentar a farsa da circunstância e sem saber porquê
o significado das coisas a esvair a intenção nua, pérfida, obstante
a tocar na pele e a deixar o frio na pele, instalado na inquietação da pele
alternar o caminho e percorrer o vazio em vómitos de agonia
       olhos
claros, sempre claros como os dias claros
a adivinhar a sorte numa mutante alegria feita de sonhos tristes
      a sorte
feita da névoa clara onde não cabem nem mãos, nem pele, nem o suave hino da consolação

sábado, 5 de fevereiro de 2011

o leite derramado ou a vã glória de vencer #6

falham-me os pés passo a passo sem receita nem provérbio. assim – zás como se o chão esburacasse para dentro da pele e nela se fundisse.

- Eu seguro-te quando estiveres mais perto do cais

e a vela sem rumo e eu sem nada, sem pés, sem asas, sem peito a respirar, sem sequer o pudor de o abrir e o entregar. estendo as mãos vazias no vazio imenso e ao meu lado a memória, instalada, solenemente sentada a sorrir para mim. e eu zás, um golpe na memória a deixá-la aturdida, a esbofetear-lhe o sorriso parvo, a vingar-me

- Se ainda quiseres poderemos reconstruir a memória

escuto a minha própria voz a encantar-se com a memória

- Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer. se ainda quiseres. se ainda me quiseres poderemos… mal me quer, bem me quer.

perscruto as entranhas e oiço o rebuliço. enxurradas de lama. ódio não do outro, de mim. olho para dentro dos meus olhos e há água que balouça no trigo e nas papoilas do caminho. há um caudal de néon nas pupilas dos meus olhos. há uma eléctrica abundância que me farta a pele. e há o enorme silêncio onde sepulto cada palavra, cada gesto, cada apendículo da minha saudade

– como na primeira hora, os olhos a vencerem-me de águas novas 

ao longe a margem serena. fecho os olhos para lá chegar.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

requiem #365


prende as palavras, mastiga o cigarro para dentro da boca e nunca prenuncies o meu nome em teu nome
estou morta a partir de agora – os vermes atulham a minha identidade e de nada adiantam as preces
desfia novenas e alega hinos de insurreição e no entanto abrevia a vontade para não te cansares
estou morta a partir de agora
a redenção não existe a menos que morras comigo