sábado, 5 de fevereiro de 2011

o leite derramado ou a vã glória de vencer #6

falham-me os pés passo a passo sem receita nem provérbio. assim – zás como se o chão esburacasse para dentro da pele e nela se fundisse.

- Eu seguro-te quando estiveres mais perto do cais

e a vela sem rumo e eu sem nada, sem pés, sem asas, sem peito a respirar, sem sequer o pudor de o abrir e o entregar. estendo as mãos vazias no vazio imenso e ao meu lado a memória, instalada, solenemente sentada a sorrir para mim. e eu zás, um golpe na memória a deixá-la aturdida, a esbofetear-lhe o sorriso parvo, a vingar-me

- Se ainda quiseres poderemos reconstruir a memória

escuto a minha própria voz a encantar-se com a memória

- Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer. se ainda quiseres. se ainda me quiseres poderemos… mal me quer, bem me quer.

perscruto as entranhas e oiço o rebuliço. enxurradas de lama. ódio não do outro, de mim. olho para dentro dos meus olhos e há água que balouça no trigo e nas papoilas do caminho. há um caudal de néon nas pupilas dos meus olhos. há uma eléctrica abundância que me farta a pele. e há o enorme silêncio onde sepulto cada palavra, cada gesto, cada apendículo da minha saudade

– como na primeira hora, os olhos a vencerem-me de águas novas 

ao longe a margem serena. fecho os olhos para lá chegar.

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